
“Médicos têm nos recomendado caminhar. Se é necessária uma prescrição médica para que nos lembremos de caminhar, então estamos vivendo em um estranho mundo novo, onde alguma coisa básica foi esquecida. Hoje quase eliminamos a necessidade de andar. A locomoção tornou-se mecanizada. Nesse ponto podemos falar dos automóveis. Eles fazem mais que nos locomover. O uso demasiado deles fez com que perdessemos nossas expressões faciais, pois não precisam mais preparar o rosto para encontrar outros rostos já que a cara de um motorista dentro de um carro é sempre vazia, congelada atrás de um pára-brisa. As faces dos quarteirões da cidade são bem mais vívidas. O fato de não encontrarmos rostos por não andarmos entre a multidão abstém-nos de nosso próprio rosto e da própria cidade (sem faces).
Andar, meditar e passear nos acalma. Se não podemos caminhar para onde irá nossa mente? Uma cidade que não permite o caminhar nega também uma moradia para ela. Andar também nos põem em contato com a nossa natureza animal. Sou como me movimento. Há um aspecto animal em nosso movimento pelo qual somos reconhecidos. Quando essa natureza animal é rejeitada, ela procura compensação em aparatos externos: carros, jóias, times e marcas. Esses emblemas estáticos são desenhados para os que vivem sentados em carros, atrás de uma mesa de escritória ou em um programa de televisão.
Na Europa do século XVIII, na arte da jardinagem, era essencial que os olhos e pés ficassem satisfeitos: os olhos para ver e os pés para atravessar. Era essencial que o olho e o pé não percorressem o mesmo caminho. As paisagens das nossas cidades parecem construídas apenas para os olhos (shoppings centers, avenidas e condomínios). O pé é forçado a caminhar sobre aquilo que o olho já percorreu, o que torna o caminhar um sofrimento ou seja o pé fica escravo do olho.
Para Shenstone caminhar é uma maneira de descobrir novas paisagens. Em nossos cenários caminhar é apenas uma maneira lenta e e ineficiente de nos aproximarmos daquilo que os olhos já viram. Caminhar hojé é caminhar com os olhos, não queremos surpresas. As cidades antigas quase sempre surgiam em torno dos rastros dos pés. Hojé a cidade é diferente. O automóvel é um desenvolvimento da consciência do olho. Assim caminhar em uma auto-estrada (caso seu carro quebre) é uma experiência assustadora. Lá fora encontramos mato, buracos, lixo e calçadas com problemas, tudo isso graças ao fato de os pés serem ignorados.
As ruas se tornaram um lugar de ninguém, um lugar de medo e crime. Mas o crime das ruas começa na prancha de um urbanista, onde a cidade é vista como um amontoado de arranha-céus e shopping centers com ruas que servem apenas de acesso entre um e outro. Os urbanistas esqueceram que as cidades nascem de baixo.
E assim a cidade vai desaparecendo, não fisicamente, pois um novo prédio surge a cada esquina, mas em nossa consciência que deixa de notar essas construções que flutuam como ilhas independentes em um imenso vazio.
Não podemos esquecer que não habitamos apenas quartos atrás de portas, cadeiras em volta de mesas, ou empregos atrás de balcões. Habitamos a terra na liberdade das pernas que dão liberdade à mente”.
(James Hillman – Cidade & Alma – Ed. Nobel)
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