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Archive for junho \27\UTC 2017

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As crianças se colocaram em fila indiana. Ela se posicionou à frente delas e tirando o vestido do caminho, com os joelhos, agachou-se para ficar pequenina.

Tirou o frasco de creme protetor do bolso e foi passando nas bochechas dos pequenos. Ao final, eles lhe sorriam e corriam para o gramado, sabendo que estavam enfim protegidos daquele sol escaldante.

À certa hora, ela começou a sentir fortes dores nos joelhos. Passou a mão sobre a testa e viu que pequenas gotículas de suor se formavam por ali. Limpou as mãos no vestido e viu correr afoita para o recreio, a última criança com a cara lambuzada de protetor.

Observou feliz como brincavam desenvoltas. Em como eram lindas e alegres. Sentiu o sol castigando seu rosto também, mas guardou novamente o creme no bolso do vestido.

Não tardou muito para que o calor fosse se alastrando por suas orelhas e pescoço, feito incêndio. Contudo nada a fez mudar de ideia quanto ao sol. Sua pele clara, deveras vermelha, implorava um pouco de atenção, mas ela andava muito chateada consigo. Talvez essa fosse uma forma de dizer que já não se importava mais.

Passaram-se alguns minutos e ele, chegando bem perto, perguntou se algum aluno tinha faltado.

Ela respondeu que não, olhando para longe.

Ele lhe estendeu a mão. Pediu que lhe desse o frasco de creme.

Ela procurou relapsa nos bolsos e o devolveu, agradecendo em nome das crianças.

Ele analisou o frasco. Abriu cauteloso a tampa e despejou um pouco nas mãos.

Falou do sol olhando para o céu azul, e sem que ela dissesse coisa alguma, espalhou com a ponta dos dedos o creme pelas bochechas dela.

Ela não esperava que ele tivesse notado seu rosto. Tampouco que lhe dispensasse cuidado algum.

Ela agradeceu encabulada e deu dois passos à frente. Não queria que ele notasse que, misturada ao creme, uma lágrima deslizava mansa pelo seu rosto incendiado.

Alguém tinha dado o primeiro passo para salvá-la das cinzas.

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Atribuição da imagem: pexels.com – CC0 Public Domain

 

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Personagem Jenna do filme “A Garçonete”

Um quase amor é uma coisa estranha. Ele quase é o que poderia ser, mas acaba não sendo nada. Um quase amor não é amor. Se você quase se ama, você realmente não tem cuidado bem de você. Se você quase é amado, certamente desconhece a alegria de ser verdadeiramente amado.

O quase amor nosso ou do outro pode até mesmo ser aceitável, mas não realiza ou traz contentamento. Eu diria que uma vida de quase amores segue em frente até que encontramos no meio do caminho não uma pedra, mas um amor de verdade.

Assistindo ao delicado filme “A Garçonete” da diretora Adrienne Shelly, percebi, entre uma cena e outra, que apenas o amor pode indicar novos caminhos para uma vida recheada de lastimosas possibilidades.

Jenna é uma garçonete que ama fazer tortas e cria uma torta para cada acontecimento de sua vida. No fundo Jenna sonha poder se dedicar apenas ao preparo das tortas, mas precisa trabalhar como garçonete para sustentar o marido possessivo e controlador. Secretamente Jenna guarda parte das gorjetas que ganha para poder fugir do casamento infeliz e participar de um famoso concurso de tortas. No entanto, ela engravida e vê seus planos irem pelo ralo.

Jenna só é capaz de aceitar a situação sufocante na qual se encontra por quase se amar, por quase acreditar que pode sair daquilo e por quase gostar da ideia de estar grávida.

Sua vida é recheada de “quases” até o momento em que ela olha para o rosto de seu bebê pela primeira vez. Então, sem demora, ela resolve dar a volta por cima.

O amor encontra um jeito diferente de tocar cada pessoa e naquele instante foi assim que ele chegou até Jenna. Ela aceitou para si coisas inaceitáveis, mas não poderia aceitar o mesmo para seu bebê.

Muita gente aceita na vida o que um dia disse que nunca aceitaria. Vê o tempo passando e vai acreditando que as coisas são como são. Vai se conformando em quase ser o que poderia ser. Em quase realizar o que poderia realizar. Em quase arriscar o que poderia arriscar.

E quando tudo parece caminhar irreparavelmente para o conformismo, eis que, geralmente em lugares e momentos improváveis, o amor verdadeiro surge. E ninguém fica indiferente ao ser tocado por ele.

Como um feixe de luz, o amor ilumina tudo que toca. O amor acorda almas adormecidas e fortalece corações destroçados. O amor aponta novas possibilidades, aflora e valida as qualidades esquecidas. O amor aproxima, transforma e cura com carinho.

O amor é uma borboleta bonita e gentil que um dia pousa em nossos sonhos e diz que podemos fazê-los reais e, depois dele, fica impossível se contentar com o que antes julgávamos ser um tipo estranho de amor, ou melhor dizendo, um quase amor.

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Tem gente que olha a cor do teu batom, mas esquece de ler as palavras da tua boca. Que brinca de adivinhar vontades, sem querê-las para si.

Essa gente não vai estar lá se um dia os castelos dos teus contos ruírem. Não estará lá se alguém quiser serrar teus sonhos ao meio.

Essa gente não sabe quantas lágrimas teu travesseiro bebeu. Não percebe o que te encanta. O que te fascina. O que te faz ser exatamente tudo o que é.

Essa gente é aquela gente que olha torto, que torce o nariz. É aquela gente que não entende por mais que você explique. E você já tentou explicar milhares de vezes. Essa gente não está nem aí, porque não sabe estar onde um ego inflado não cabe.

Tem gente que pede um colo, daí você dá. Tem gente que pede um ouvido, daí você escuta. Tem gente que pede uma outra chance. Então, você concede uma nova. Mas a recíproca nunca é verdadeira. É que tem gente que não sabe ser abrigo. Que não sabe fazer caber em si nada além de si mesmo.

Tem até quem te ame desleixado. Que fala que ama, depois volta atrás. Que te trata de qualquer jeito e que deseja te fazer menor para caber no mundo apertado dele. Daí você se encolhe. Você esvazia os pulmões para se fazer pequeno, mas não consegue ficar ali, ao lado de quem faz exigências tolas para te aceitar.

Tem gente que não consegue ler o teu olhar. Que não percebe o grito preso na tua garganta. Que vê você caído no chão e pergunta se precisa de algo, como quem pergunta se você precisa de uma bebida morna em um dia quente. Tem gente que não quer ajudar de verdade.

Ah, mas um dia, um dia assim sem mais nem menos, pelos corredores gelados da vida, teus olhos cruzarão com outros que te dirão risonhos ois, como se te esperassem por uma infinidade de tempo.

E você vai sentir uma ânsia louca de se atirar na beleza desse outro. Desse alguém que sabe das razões, que entende de sonhos, que respeita motivos e ama desmedido.

Um dia assim, sem querer, alguém quebrará os relógios do tempo e te fará eterno. Um dia alguém te enxergará do jeito que você merece ser enxergado e você vai esquecer de todos aqueles que, um dia, te viram tão errado.

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Atribuição da imagem: pexels.com – CC0 Public Domain

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filhos

Um dia teu filho crescido voltará. Dirá do mundo que descobriu com os próprios olhos e das coisas que o fizeram balançar. Um dia teu filho precisará do teu colo e consolo.

Um dia teu filho virá com os ouvidos atentos e precisará das tuas palavras. Não, filho crescido não é filho criado.

Um dia teu filho sentará ao teu lado e pedirá teu conselho e nessa hora põe de lado as desdenhosas chorumelas ou o medonho “eu avisei”, “bem feito”, “cada um com seus problemas”. Torça pelo melhor, torça para teu filho vencer, mas se ele fraquejar, que teu coração o receba com candura e amor.

Muitos filhos não voltam porque não têm para onde voltar. Porque foram varridos para fora do ninho e caíram no mundo. Muitos filhos se tornam órfãos de mães e pais vivos depois de adultos.

Quantas coisas desastrosas poderiam ter sido evitadas se antes existisse uma conversa entre um filho e um pai! Entre um filho e uma mãe! Como seria bom e sincero poder compartilhar aprendizados de forma leve, sem ressentimentos! Sem esperar uma queda para então estender a mão!

Nós podemos isso hoje, pais e mães podem isso agora. Podem dizer das verdades sem macular sonhos. Podem falar da vida com amor e orientar quando ela for dor e reparação.

Às vezes, eu fico pensando em como seriam as coisas se algumas pessoas tivessem tido pais e mães amorosos. Leio biografias e fico imaginando como poderia ter sido aquela história se a pessoa em questão pudesse ser amada, reconfortada e abraçada depois dos vinte, trinta ou quarenta anos.

Olho para o rosto feliz de mulheres admiráveis como a saudosa Palmirinha, por exemplo, a doce vovó que há anos ensina deliciosas receitas na TV, e penso em quanto sofrimento ela aceitou por não ter no passado para onde voltar. Em como foi difícil para ela, com três filhas pequenas, ter ficado ao lado de um marido abusivo por ter perdido o pai e pela mãe não lhe ter sido nem um pouco amigável.

Sim, vive-se sem o abraço do ninho o qual um dia nos abrigou, mas vive-se melhor e com mais candura se as portas da casa da infância forem destrancadas e lá dentro, sem rancores, sem ressentimentos, houver uma palavra de amor e um abraço carinhoso.

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