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Archive for the ‘Arquivo’ Category

cigano

Ela saiu de casa quando já era noite. Apressada para chegar ao mercado antes dele fechar.

Precisava de mais farinha e essências para que a mãe, boleira, terminasse, uma encomenda.

Pegou tudo afoita, agradeceu à moça do caixa e saiu correndo pelas ruas de paralelepípedos mal iluminadas que a levariam até sua casa.

Notou no meio do caminho que alguém a seguia. Respirou fundo e olhou para trás com o canto dos olhos. Um rapaz jovem estava agachado catando na rua pequenos vidrinhos. Quando ele chegou mais perto ela percebeu que eram suas essências que tinham caído por algum buraco da sacola.

“Desastrada”- pensou consigo ao mesmo tempo em que pousou os olhos no rosto do homem para agradecer. Notou pelas roupas que ele fazia parte do acampamento de ciganos que chegara há pouco na cidade.

Ele tinha brincos de argola dourados nas orelhas e um contorno em torno dos olhos, algo como um lápis preto passado com força e precisão. Os olhos eram verdes. A pele dourada e diferente do que imaginou, não viu nenhum dente de ouro na boca dele.

Ela agradeceu a gentileza e rapidamente juntou todos os frascos. O último ela puxou com pressa da mão do cigano que antes de soltá-lo, segurou uma de suas mãos.

– Oh, não tenho um tostão, gastei tudo no mercado. Por favor, não leia minha mão – ela falou com sinceridade.

-Não vou ler sua mão. Não para ti. Não vou te pedir coisa alguma.

Ela se desculpou. Julgou mal o rapaz. Por tudo que já ouvira achou que ele queria arranjar um jeito de conseguir dinheiro. Mas esse não parecia realmente o caso.

Sem demora ele esticou o braço e tirou dele uma pulseira com um nome gravado nela. Tiago estava escrito no metal com uma delicada caligrafia.

-Não posso aceitar. O que direi quando perguntarem onde arranjei a pulseira?

-Você não precisa dizer nada. Talvez que tenha sido um presente. Costumamos dar presentes.

-Para estranhos que encontram no meio da rua? – ela perguntou surpresa.

-Não, para as mulheres com as quais um dia iremos nos casar. E terminando de falar isso, com um sorriso nos lábios, Tiago seguiu seu caminho, carregando consigo a certeza de que voltaria a encontrar aquela mulher.

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Atribuição da imagem: pexels.com – CC0 Public Domain

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Ela desceu as escadas devagar para não fazer barulho. Ele já esperava por ela. Ela queria lhe dizer o que tinha pensado, mas não sabia se ele compreenderia. Desde o início ficou tão óbvio que eram tão diferentes. Que suas crenças eram tão antagônicas. Ela queria lhe dizer que iria sentir muito a sua falta quando finalmente partisse. E o dia da partida estava chegando.

Ela sentiria falta da respiração dele, daquela respiração serena que a fazia lembrar da doce melodia de pinheiros. Daqueles olhos verdes dos quais lágrimas vertiam feito folhas macias a forrar o chão de uma frondosa floresta. O peito dele era uma floresta de onde a vida brotava carinhosa. Ela gostaria de deitar naquele peito e descansar em sua maciez doce e tentadora.

Ela sorriu para ele. Ele pediu que se aproximasse. Ela se sentou na beira da cama. Olhou sobre a blusa dele a marca do machucado do começo do mês. Ele estava curado. Já podia voar como um pássaro livre de volta ao lar.

O lugar dele não era ali. Ele precisava ir. Ela mordeu os lábios e sorriu quando ele lhe contou alguma coisa boba sobre o que tinha descoberto no livro que ela esquecera no quarto.

Ela estava mais quieta que de costume, estava tímida pela tentação de querer ele só para si. Por desejá-lo como nunca desejara antes. Ele estendeu-lhe a mão. Ela lhe entregou os dedos. Ele lhe entregou o livro. Dentro do livro ela encontraria muitas das respostas as quais havia buscado por tempos.

Ele disse que havia gostado da escritora. Ela amava aquela senhora. Queria se possível um dia conhecê-la. Ele notou que o olhar dela estava diferente. Ele sentiu a respiração dela ofegante cortando o ar. Esmiuçando o silêncio como fogo transformando papel em cinzas. O livro já tinha queimado em suas mãos.

Ela desejava. Não conseguia pensar em mais nada. Ele desejava também e entendeu que teria que dar o primeiro passo para libertá-la das suas amarras. Ele a puxou para si. Ele a segurou entre seus braços. E ela pensou que estava em um paraíso com cheiro de manhã.

Ele beijou sua boca doce. Bebeu dela como se bebe de uma fonte terna. Com carinho e delicadeza. Ele voaria, mas não sem antes libertá-la.

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Atribuição da imagem: pexels.com – CC0 Public Domain

 

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Um dia me roubaram o nome. Então eu andava pelas ruas e ninguém sabia como me chamar.

Eu ia aos lugares e as pessoas não me pronunciavam. Oh meu Deus, não quero que outra pessoa passe pelo que passei. Tive o nome roubado e não houve alguém a quem pude reclamar o nome que me foi tomado.

As pessoas me olhavam e viam outra. Uma outra que eu não conhecia. As pessoas me chamavam de mentirosa quando eu dizia que eu era eu. Eu falava que aquilo era um engano e elas riam de mim, como se eu fosse uma piada de muito mau gosto.

Eu procurava restos de espelhos pelo chão, me olhava e dizia: Calma, você ainda está aí. Tudo isso vai passar.

Então eu me pelava de medo. Medo do amor chegar e não me encontrar. Do amor não conseguir me encontrar porque só eu sabia que era eu. Só eu tinha voz para me chamar naquele pedaço de mundo. Mas até quando eu teria forças para me dizer? Até quando eu teria forças para ser eu? Até quando eu conseguiria sozinha dizer que eu não era quem achavam que eu era?

Acho que teve dia que cheguei a falar 33 vezes para 33 pessoas diferentes meu nome. Elas me paravam na rua, no mercado, na feira, nas festas. Elas corriam atrás de mim, me puxavam pelo braço e me cobravam. Diziam eu devia conhecê-las. Então eu percebi. Uma outra estava vivendo a minha vida. Estava enchendo toda a minha cidade de si. E fazia de tal forma que as pessoas se esqueciam de me lembrar.

Então eu pegava meu carro e ia para longe. Chegava em uma outra cidade, entrava no museu deserto de manhã. Olhava para o guarda e dizia. Matheus, sabe quem sou? E ele dizia meu nome.

Matheus nunca entendeu o alívio que eu sentia quando ele me pronunciava. Quando ele me salvava do mundo. As pessoas então iam entrando por aquela imensa porta centenária, me chamavam e me enchiam de um contentamento indescritível.

A minha colega de trabalho, a linda francesa de olhos verdes, ria quando eu contava que só ali, naquele museu diminuto eu era eu. Que lá fora uma legião de gente se torcia de rir quando eu me dizia. Ah, meu Deus, só o Matheus e a deusa francesa sabiam de mim. Só eles e aqueles que visitavam o lugar e me pediam uma breve explicação, sabiam de mim.

Lá fora uma outra existia no mundo. Uma outra ocupava todos os espaços. Uma outra tinha roubado meu nome.

Se eu pudesse dormiria no porão do museu, naquele espaço entulhado de antigas preciosidades, dormiria feliz ali abraçada aos escombros de peças incompletas. Mas a noite implacável me dizia, fria, que eu precisava voltar para aquele espaço no mundo cheio de pessoas que não me sabiam, mas que ousavam duvidar da minha verdade.

Eu dormia recitando meu nome como um mantra. Eu precisava sobreviver.

O tempo haveria de passar. Eu só precisava ser forte para não me deixar levar por tudo aquilo que não tinha sido criado por mim. Por tudo aquilo que tinha sido criado por outra, que não eu. Eu precisava me lembrar para sobreviver.

Eu sobrevivi.

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Correu para sentar-se à mesa. Ajeitou o vestido e se colocou em frente ao prato. Do outro lado da mesa estava o marido.

Ela respirou fundo e olhou de soslaio para o porta-retrato em cima do aparador. Lá estavam os antepassados do cônjuge. Todos sentados sorrindo em uma daquelas fotos de família em preto e branco. No centro do retrato o patriarca com grande barba parecia olhar fixo para quem o fitasse.

Ela já tinha percebido isso e não importava a posição em que estava, o homem parecia acompanhá-la com os olhos. Sabia das histórias daquele homem, tinha sido deveras ruim. Maltratou e humilhou a todos. Causou demasiada dor por onde passou. Um arrepio subiu-lhe pelas costas.

À princípio ela não tinha notado, mas agora parecia evidente que o marido guardava alguma semelhança física com o velho. Tinha os mesmos olhos caídos. Os mesmos trejeitos. E agora a mesma barba que fazia questão de alisar puxando-a insistentemente com os dedos.

Então o homem com quem se casara, de barba cortada e queixo pequeno estava desaparecendo frente aos seus olhos. A cada dia parecia que o homem do retrato dava um novo passo para fora de lá.

Durante o jantar ela falou sobre coisas triviais. Contou futilidades para fingir certo conforto. Ele não respondeu. Dizia que não precisava responder. Que ela já sabia todas as respostas. Terminou de comer e ao final sorriu-lhe com os dentes repletos de fumo. O mesmo que seu avô fumava compulsivamente.

Ela precisava fazer algo. Sabia que não podia deixar as coisas caminharem para onde estavam caminhando. Sorriu para o marido, acenando-lhe com as mãos enquanto pensava em alguma solução. Bufou de novo e voltou a olhar para o velho no retrato.

Não, ele não sairia dali. Ela não permitiria.

Ela puxou todas as gavetas em busca de uma lâmina de barbear. Sabia que o marido dormia pesado e naquela noite acabaria com aquele circo.

Esperou que ele fosse se deitar. Trancou-se no banheiro. Ficou lá tempo suficiente para que ele começasse a roncar. Saiu pisando na ponta dos pés e com a espuma de barbear em uma das mãos e a lâmina na outra raspou toda aquela barba. Raspou cautelosa para que ele não acordasse e empurrando tudo para baixo da cama, deitou de lado e dormiu serena.

No outro dia o marido acordou e num impulso instintivo foi alisar a barba, mas ela não estava lá. Ele correu para o espelho e ficou estupefato com o que viu. Ela sentou-se na cama e deu bom retorno ao homem com quem havia se casado.

– Seja bem-vindo, meu querido! Foi longo o tempo de sua ausência, contudo finalmente está de volta.

Os dois então se abraçaram demorado e, entre um suspiro e outro, ela riu do velho que achou que seria mais forte que ela.

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Um belo dia estamos a caminhar ao lado do nosso cachorro e ele, inexplicavelmente, nos crava os dentes. A dor física é imensa, mas a dor emocional é ainda maior. Que outro cachorro nos mordesse, vá lá, mas o nosso próprio cachorro?!

Metáforas à parte, dói demais ser machucado por quem acreditávamos ser de confiança. Dói demais ouvir ofensas de alguém a quem confiamos segredos e dedicamos tempo, carinho e cuidado.

Dói demais ouvir tudo o que contamos em completa confiança ser usado contra nós, ser atirado em nossa cara sem dó nem piedade. Dói ver planos roubados. Dói notar que nos enganados redondamente em relação a uma pessoa.

A dor de uma mordida assim é gritante. Junto dela vem um monte de sensações tristes e, diferente de como nos portamos em relação àqueles que mal conhecemos, quando a mordida vem de alguém próximo, a gente se culpa, se deixa abater e fica meio passado mesmo.

Ah, mas se pararmos para pensar a pessoa que nos pegou de surpresa já tinha dado indícios de que poderia morder doído. Ela já tinha feito um comentário maldoso. Já tinha um histórico o qual resolvemos ignorar. Ela já tinha mentido antes. Ah sim, a gente quase sempre na ânsia de encaixar alguém em um lugar especial acaba enfiando os pés pelas mãos mesmo.

Acontece para quem está vivo. Felizmente a gente se regenera. A gente chora, grita, se descabela, mas a dor passa e como passa.

Um dia a gente olha a marca da mordida, já quase indelével, e percebe que a gente é muito maior que ela. A gente entende que aquela marquinha ali nos ensinou muito sobre a vida, sobre as pessoas e sobre nós mesmos. Que ela abriu os nossos olhos para a importância dos detalhes. Para a atenção às entrelinhas.

A gente aprende, então, a distinguir cão que morde de cão que não morde e continua amando, continua acreditando, continua seguindo em frente. Sim, essa é a nossa natureza. A gente nasceu para cativar e ser cativado, contudo as nossas experiências devem ser levadas em conta e os sinais sutis que nos dizem quem realmente as pessoas são, nunca devem ser ignorados.

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– Ei, tem alguém sentado ao seu lado? Esse lugar está ocupado?

Então, você procura com os olhos aquela pessoa que disse que estaria ao seu lado, mas ela não está por perto. Ela está em algum outro lugar, bem distante de você. Ela está longe, mas insiste que você guarde um lugar para ela. Essa pessoa quer que você pense que ela está com você, mas ela não está.

Pessoas assim existem e são muito danosas. Elas tornam inviável a vida amorosa daqueles que acreditam em suas falsas intenções.

Não é incomum acontecer que, ao dizer que existe espaço para outra pessoa em sua vida, a tal criatura sumida, que pediu para você guardar o lugar, apareça e faça questão de mostrar que você está irremediavelmente ligado a ela. E, depois de ter feito você acreditar que vocês estão juntos, ela volta a sumir, mas sempre com a promessa de voltar.

Muitas vezes é bastante difícil fechar algumas portas, mas apenas assim é possível seguir em frente. Não permita que volte quem nunca quis ficar.

Olhe bem, preste atenção, certamente existe ao menos uma pessoa interessante querendo sentar ao seu lado, querendo te conhecer melhor. Desejosa em compartilhar da sua companhia, sedenta por tecer, com delicadeza, uma intimidade bonita e duradoura com você, mas isso nunca vai acontecer se as suas mãos permanecerem sobre o assento vazio. Se os seus olhos continuarem a buscar em algum outro canto alguém que efetivamente não está.

Levante suas mãos. Diga que o lugar aí do seu lado está livre. Permita-se ser feliz. Mas seja forte o suficiente para zelar por sua felicidade. Para impedir que a pessoa sumida apareça e mande aquele que realmente está ao seu lado para longe. Seja forte para dizer em alto e bom tom que você é livre para escolher. Que você cansou de esperar. Que você finalmente percebeu que merece mais.

Deslumbre-se com novos olhos. Deixe-se conquistar por outros sorrisos. Encante-se com o amor sincero. Permita-se o entrelaçar de mãos com quem é de verdade e não deixe voltar aquele que nunca realmente quis estar ao seu lado.

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Um dia assim, quase sem querer, a gente se pega com um regador na mão regando uma baita pedra.

Parece que já virou costume regar pedras pelo caminho. A gente faz por instinto, costume ou por pura ingenuidade. A gente acredita que dali vai brotar algo, vai nascer folha, fruto, flor.

Então lá se vão litros de tempo e cuidado perdidos com uma pedra. Uma pedra que não deixará de ser pedra. Não, não adianta dizer que a pedra vai crescer, que ela vai ganhar vida e vai virar outra coisa que não ela mesma. Não, não importa o que você faça, a bendita pedra vai ficar ali, assim como estava antes de você chegar, e permanecerá exatamente igual quando você partir.

Um dia a gente tem que olhar para pedra e ser menos poético. Tem que olhar para pedra e ver pedra mesmo. Tem que se enxergar, se tocar e perceber que alguns caminhos não levam a lugar algum. Que algumas pessoas não mudam. Que algumas situações são complicadas e que não dá para resolvê-las sem o apoio do outro.

Um dia a gente tem que colocar na cabeça que há um caminho além das pedras e que ele merece ser priorizado. Que a gente tem que ser cuidadoso com o nosso tempo. Que o nosso tempo é valioso e finito. Que tudo que desprendemos desnecessariamente para regar pedras pode nos fazer falta em algum momento da vida.

A gente tem que aprender, de uma vez por todas, que tem muito chão precisando de água por aí. Que tem muito coração sedento de amor. Que tem muita gente boa ao lado de quem vale a pena caminhar.

Não importa quantos litros desperdiçamos com uma pedra, dela não virá uma única gota para nos saciar se um dia tivermos sede.

Talvez tenha chegado a hora da gente descansar os braços estirados pela rega desnecessária. Talvez tenha chegado o momento da gente guardar os regadores e chover cuidado em tudo aquilo que merece ser efetivamente regado.

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