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Todos temos uma ideia de como pode ser uma pessoa má, de como nos prevenir e tomar distância de uma se por acaso surgir em nossa vida, mas nem sempre estamos preparados para identificar alguém que é mau, mas que não parece ser. Acredito que isso se dê pelo fato de ser muito difícil pensar o mal quando ele não faz parte efetiva do nosso cotidiano. Logo algumas possibilidades absurdas, mas possíveis, passam bem longe da nossa cabeça e, eventualmente, para nosso espanto, acabam se concretizando.

Acho que a historinha a seguir exemplifica bem o que estou dizendo:

“O escorpião aproximou-se do sapo que estava à beira do rio. Como não sabia nadar, pediu uma carona para chegar à outra margem. Desconfiado, o sapo respondeu: “Ora, escorpião, só se eu fosse tolo demais! Você é traiçoeiro, vai me picar, soltar o seu veneno e eu vou morrer.” Mesmo assim o escorpião insistiu, com o argumento lógico de que se picasse o sapo ambos morreriam. Com promessas de que poderia ficar tranquilo, o sapo cedeu, acomodou o escorpião em suas costas e começou a nadar. Ao fim da travessia, o escorpião cravou o seu ferrão mortal no sapo e saltou ileso em terra firme. Atingido pelo veneno e já começando a afundar, o sapo desesperado quis saber o porquê de tamanha crueldade. E o escorpião respondeu friamente: – Porque essa é a minha natureza!” (Trecho retirado do livro “Mentes Perigosas” da Psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva)

Então em um passe de mágica damos as chaves de nossas casas na mão da pessoa errada e muitas vezes somos nós a convidá-la a entrar em nossa vida, como uma vítima convida um vampiro que se coloca frente à sua porta. Tudo acontece muito rápido e em um piscar de olhos estamos mais enroscados que um inseto em uma grande teia de aranha.

Eu diria que para começo de conversa todos nós temos que ter clara em nossa mente a ideia de que nem todas as pessoas são iguais. Nem todos sentem empatia, amor ou entendem o que é respeito. Existem patologias mentais que distorcem a forma como alguns enxergam a realidade, mas uma delas, que não pode ser considerada uma patologia, mas uma disfunção do funcionamento cerebral, mais precisamente da ligação da amígdala cerebral com o córtex órbito-frontal, é devastadora. Esse mal funcionamento cerebral impede que pessoas sintam qualquer tipo de emoção, mesmo que pareça o contrário. Passamos a falar então de psicopatia.

Estima-se que 4% da população mundial sofra desse mal. Dessa falta de bom senso e consciência que pode deixar um rastro de tristeza e destruição na vida de pessoas normais, dotadas de amor e empatia como nós. Pessoas como eu e você, cientes do nosso papel moral dentro da sociedade, passíveis de erros, afinal não somos perfeitos, mas plenamente capazes de aprender com cada um deles.

Diferente do que muitos pensam a grande maioria dos psicopatas nunca cometerá um assassinato físico, mas muitos deles cometem golpes, fraudam, mentem, roubam, agridem e difamam pessoas próximas, sem remorso algum por isso. Dotados de uma mente extremamente racional e desprovidos de sentimentos, eles não se sentem mal por causar a ruína na vida alheia, pelo contrário, se sentem muito bem em ter alcançado suas metas, mesmo que para isso tenham passado sobre uma longa fila de inocentes.

Acho que o cinema se debruçou com maestria sobre a psicopatia, principalmente em seu grau mais severo, mas aqui me recordo de um filme singelo, o “Educação” de Lone Scherfig, que fala de David, um personagem que certamente poderia ser descrito no mundo real como psicopata e que muito pode ensinar a quem assiste ao filme com atenção.

Resumidamente o enredo fala de uma jovem, Jenny, que sem uma boa orientação familiar e bastante inocente, se apaixona por David, um homem mais velho que lhe apresenta um mundo diferente, repleto de glamour e luxo. Jenny se encanta com o que ela acredita ser a vida que sempre desejou, abandona então seus estudos e aposta em uma vida de ilusões. Os pais fazem vista grossa e aceitam o relacionamento da filha com esse gentil e encantador homem mais velho, sem fazer questionamentos ou procurar saber quem ele realmente é. Afinal, eles foram completamente envolvidos pelas mentiras encantadoras de David. Com o passar do tempo Jenny percebe que algo não está muito certo e encontra duras respostas acerca de quem ela pensava ser o homem de sua vida.

Quando assistirem ao filme “Educação” atentem para o fato de que em determinado momento, o sedutor David, entra na casa de uma velhinha e com muita lábia rouba um quadro de valor que estava na sala da mulher (sem que ela perceba). Ele menciona que a senhora não precisaria daquele precioso item. Ele faz o mesmo com Jenny, entra na casa de seus pais e a rouba de lá como fez com o quadro, sem que os mesmos se deem conta disso. Jenny e o quadro são tratados como posses que servirão, na cabeça dele, para um meio.

De acordo com as estimativas cruzaremos com ao menos quinze psicopatas durante a vida. Eles estão em todos os lugares, quase sempre ocupando posições de poder onde poderão exercer maior influência sobre as pessoas. Mestres do convencimento sempre conseguem inverter o jogo a favor deles, dizendo que a culpa pelas suas mazelas é dos outros. Fazendo suas vítimas pensarem ter culpa pelo que não fizeram e agirem diferente de como sempre agiram.

Comumente quando a máscara sentimental do psicopata cai e ele se revela em sua plenitude, já sem fazer uso de sua perspicaz sedução, muita gente se pergunta como as pessoas envolvidas por ele não perceberam o golpe, não viram que estavam sendo ludibriadas. A resposta para isso se justifica pelo fato de psicopatas serem ótimos atores e planejarem com minúcia seus passos, fazendo uso da boa-fé de pessoas solícitas e quase sempre de alma pura.

Saber da existência do mal é o primeiro passo para se prevenir. Ninguém está imune a ele em um mundo tão competitivo e cheio de valores deturpados como o nosso, mas eu diria que a intuição ainda é a nossa maior e melhor aliada na detecção de pessoas efetivamente más, mas que comumente se vestem com uma linda pelagem de cordeiro. A nossa intuição quase sempre, movida pelo que há de mais genuíno e sentimental em nós, nos alerta acerca da conduta errática do outro. Só cabe a nós dar ouvidos a ela com carinho, mesmo diante daquela vontadinha de subestimá-la frente ao que nos parece quase irresistível.

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Atribuição da imagem: pixabay.com – CC0 Public Domain

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Naquele dia ela se sentia péssima. Tinha acordado atrasada. Perdeu o batom. A cara estava amassada e o cabelo precisava de um bom corte. Ela se olhou no espelho e recitou um HORRÍVEL pausado e doloroso.

Pegou a bolsa, chateada consigo. Com tudo que lhe parecia feito, torto e incerto. Chegou no ponto de ônibus ofegante. O ponto era um daqueles nos quais apenas uma haste azul demarca onde o veículo deve parar.

Olhou para céu e pensou alto: VAI CHOVER. E não demorou muito para ela perceber os primeiros pingos grossos em sua pele. Ela abriu a bolsa em busca do guarda-chuva. Deveria estar ali, mas não estava. Ela bufou. Concluiu que era um mau dia.

O ônibus chegou, ela entrou, deixando um rastro molhado atrás de si. Estava irritada. Achava-se uma aberração. Como um monstro do lago Ness.

Sentou no último banco. Viu algumas pessoas entrarem. Não reparou que bem perto dela, contemplando a beleza do seu rosto molhado, um poeta pensava em silêncio em como ela era bonita. Em como, se tivesse um pouco mais de coragem, levantaria dali e se sentaria ao seu lado. Em como ela parecia ser a mulher dos sonhos dele e de outros homens.

E ele em sua doçura e largo sentimento fechou os olhos e imaginou-a ao seu lado em uma larga casa. No quintal dois filhos, um labrador e um gato persa. Ele abriu os olhos. Ela ainda estava ali, mas por pouco tempo.

O ônibus parou e ela não demorou a descer. Saiu dali imaginando-se imprópria, com rasas chances para o amor. Ela pensou pequeno, pensou na felicidade de, quem sabe um dia, encontrar um namorado. Mal sabia ela, que na cabeça do poeta, ela já vivia com ele toda uma vida.

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Ela olhou para sua Wax Flower e pensou em como a planta ficaria em sua ausência, nas suas pequenas férias de fim de ano. Lúcia a tinha comprado em um Garden deliciosamente úmido em um dia quente de primavera.

Ela se lembrava bem desse dia. A planta era a última que sobrara na prateleira de arbustivas e Lúcia não conseguiu resistir ao seu charme tímido e perfume delicado.

A moça foi então até a sacada e tentou achar um canto onde o sol não fosse impiedoso com a planta. Não, a Wax não iria se dar bem ali e ela sentiu seu coração agoniado. Talvez tivesse que se despedir do arbusto ou arriscar deixá-lo lá e ao retornar vê-lo à míngua.

Não, isso não seria nada bom. Nem para ela, nem para a planta. As duas tinham sido companheiras e confidentes nos últimos meses. A planta a tinha escolhido e ela à planta.

Lúcia ouviu então alguém na sacada do apartamento ao lado e quando colocou a cabeça para fora notou que era o novo vizinho manuseando alguns apetrechos de jardinagem.

Ela o observou pegar com carinho um pequeno bonsai e o apoiar no beiral da sacada, ajeitando cuidadoso com uma tesoura alguns galhos disformes.

Ela reparou que ele tinha um semblante bastante calmo ao lidar com a pequena e preciosa planta. E ele percebeu que ela o observava, mas ficou calado. Fingiu não saber que Lúcia olhava, não só para o bonsai, mas também para ele.

Lúcia queria ser assim, calma, mas se afobava com facilidade e quase sempre se via insegura em relação a tudo. Uma ideia veio-lhe então de supetão à cabeça e, sem pensar muito, ela agarrou a Wax e bateu na porta do vizinho.

Ele levou um certo tempo para abrir a porta, talvez estivesse terminando a poda ou lavando as mãos, mas quando apareceu tinha um sorriso sincero e cordial. Sua barba quase ruiva dava-lhe um ar europeu e seus olhos acinzentados diziam sorridentes “olá”. Lúcia não sabia como se explicar, mas sabia que ele era a pessoa certa para ajudá-la com a planta.

– Sei que você nunca me viu antes, mas eu, há pouco, o vi cuidando de um pequeno bonsai e vim aqui para te perguntar se você poderia ficar com a minha planta por um pouco mais de uma semana. Caso não vá viajar, é claro. É que eu não tenho ninguém com quem deixá-la e eu, apesar de não entender muito de plantas, gosto muito dela.

– Uma Wax Flower australiana! – fazia tempo que não via uma dessas. À propósito, eu me chamo Júlio e você?

– Eu me chamo Lúcia, me desculpe, sempre esqueço de me apresentar. Eu seria muito grata se pudesse me ajudar.

– Posso sim Lúcia, não vou viajar, disse ele, pegando a planta com uma imensa intimidade, como se já a conhecesse há tempos.

Lúcia respirou aliviada e o abraçou desejando um final de ano maravilhoso. E durante o abraço Júlio a apertou, delicado, contra seu peito e ela se sentiu imensamente protegida e amada, como há muito não se sentia. E, naquele instante, Lúcia quase desejou ficar para sempre por ali, mas não podia.

Ela agradeceu a Júlio ainda uma vez pela imensa gentileza e generosidade e entrou afoita para dentro de seu apartamento. Suas malas já estavam prontas, junto da porta, só esperando por ela.

Durante todo o trajeto de ida, sentada na última fileira dos bancos de um velho ônibus, Lúcia não conseguiu tirar o vizinho e a Wax do pensamento. E na noite de réveillon, depois de pular algumas ondas, quando Lúcia foi pedir pelo amor, ela olhou para o céu e desejou um que soubesse cuidar. Lúcia desejou Júlio.

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O telefone tocou algumas vezes naquele dia. Ela resolveu, custosamente, atender e do outro lado uma voz sussurrou: Por favor, perdoa-me. Perdoa-me por tudo que eu te fiz.

Ela tentou explicar que não guardava rancor, que tinha aprendido com o tempo que rancor é uma coisa ruim que come a gente por dentro.

A pessoa insistiu e perguntou de novo: Perdoa-me?

Ela disse que não estava ressentida ou com raiva, mas que ela perdoaria o ligante se isso fosse aliviar o peso da consciência dele.

A pessoa agradeceu e desligou o telefone. Prometendo mudar. Prometendo fazer tudo diferente. Mas ela sabia que a mudança era um processo e não um evento. Que as palavras muitas vezes se antecipam, precipitadamente, às ações. Que só o tempo diria da mudança.

E ela ficou pensando em como as coisas tinham chegado naquele ponto. Em como aquela pessoa parecia não estar bem, mas também em como ela parecia precisar do seu perdão como uma pomada calmante para aliviar a dor de uma queimadura de sol. Como se o seu perdão fosse algum tipo de alívio momentâneo que não garantiria, necessariamente, alguma mudança efetiva contra futuras insolações.

Depois disso, andando pelas ruas, as pessoas passaram a pará-la e a dizer, com tapas em suas costas, que tinha sido ótimo ela ter mudado de ideia. Que era muito bom ela ter voltado atrás.

Ela percebeu então que muita gente confunde perdão com aprovação. Ela nunca aprovara o que a pessoa da ligação fizera. O seu perdão foi apenas um sinal de que ela havia superado aquilo. Seguido em frente. Feito sua vida. Curado com amor todas as suas feridas. Não um sinal de que ela tinha de alguma forma aplaudido o que aconteceu no passado ou que ela pretendia colocar aquela pessoa de volta em sua vida, assim como antes.

Ela não carregava em si qualquer tipo de arrependimento. Não tinha se curvado às coisas erradas. Não tinha se equivocado ao se afastar. Não foi precipitada em proteger-se confiando em pessoas verdadeiras e leais.

Não, ela não tinha voltado atrás com aquele perdão. Ela tinha dado passos à frente.

Em sua cabeça, perdoar era como desatar nós. O perdão que ela havia concedido desatou o último nó que a ligava àqueles tortuosos dias. Agora a maturidade lhe dava a certeza de que, apesar de ter sido julgada de forma leviana no passado, por quem observava tudo de fora, tinha seguido, acertadamente, a sua verdade e protegido zelosa a sua integridade.

Agora o que ela merecia era paz. Não queria comprar brigas, postular hipóteses, comprovar teses. Queria continuar sendo ela mesma, caminhando com os próprios pés e construindo seu caminho. Seguindo em frente, sempre em frente, perdoando sim, mas sem pensar em voltar atrás.

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Ontem eu te vi e você era luz. Você me estendeu a mão e eu guardei seu riso na memória e é dele que me lembro quando penso em você.

Hoje eu te vi e você ainda é luz, mas teus olhos tristes me contaram que você se esqueceu disso.

Você começou a esconder seu sorriso bonito com as mãos e, encobrindo sua alegria, o riso virou choro. Então te falaram que as asas nas suas costas eram um peso e você acreditou.

Veja bem, eu estou aqui para te lembrar que esse peso que te legaram, não é um fardo, mas sim uma benção, em forma de asas bem pouco usadas. Que você é maior que tudo.

Não se esqueça daqueles dias risonhos cheios de planos e sonhos felizes. Eles não acabaram.

Lembra. Você não é o seu dia que deu errado. Você não é um problema. Você não é a má fase pela qual está passando. Você não é um relacionamento rompido, o resultado do vestibular, o status do teu cargo ou a empresa para qual trabalha. Você não é sua doença ou sua dificuldade.

Você é muito mais que isso e a vida tem uma maneira interessante de indicar novos caminhos ou lembrar que podemos simplesmente retornar. Acredite na sua força e não desanime, mesmo que seus pés estejam cansados e seus olhos embaçados pelo choro.

Deixa de lado tudo que te levou para longe de você e volta. Larga essa terra de Oz, e vem pra realidade. Lembra. O Mágico de Oz bem pouco podia, no fim das contas foi a própria Dorothy que venceu todas as dificuldades e voltou para a verdade. Volte para a sua verdade. Aquela que disseram que você devia colocar de lado.

Consola teu coração. Consola tua alma e ora baixinho. Os anjos te escutarão.

Não diga que está tudo bem quando as coisas não estiverem bem. Seja sincero consigo e com os outros. Afasta do seu caminho aqueles que te trouxeram tanta dor. Vai para perto de quem te ama. Inventa um novo jeito de ver as coisas. Encontra a felicidade que existe aí dentro. É só procurar.

Ouça o teu coração. O coração não mente.

Permita-se tocar pela poesia da vida. Observa como é bonito o vento que tira as flores para dançar. Escuta a sinfonia do universo que diz: você não está só.

Você não está só. Hoje quem te estende a mão sou eu.

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Pessoas que gostam de gatos ou de cachorros têm personalidades bastante distintas. Enquanto os amantes de cachorros são mais sociáveis, os donos de gato são quase sempre dotados de um sedutor ar de mistério.

Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Carroll, nos Estados Unidos, mostrou que donos de gato têm uma alma livre, ou seja, não se prendem tanto às regras. Também são pessoas dotadas de grande sensibilidade, com um ar de introspecção notório e bastante abertas a novas experiências.

Para Denise Guastello, professora de psicologia e principal autora desse estudo, as diferenças de personalidade entre donos de gato e de cachorro podem estar relacionadas ao tipo de ambiente que essas pessoas preferem. Donos de cachorro gostam mais de sair, levar seu animal para passear, ver outras pessoas enquanto que donos de gatos, por serem mais introspectivos e dotados de grande sensibilidade, quase sempre preferem ficar em casa lendo um livro.

Se observarmos bem, donos de gatos têm uma característica muito importante: eles sabem respeitar a forma de agir do seu animal de estimação, sem exigir que o felino se expresse desse ou daquele jeito. Não exercem com seu animal qualquer relação de posse. Não exigem uma atenção desmedida ou eufórica, tão própria dos cães, para se sentirem amados. Não têm dentro de casa um animal que os vê como mestres, mas um de índole livre que os vê como igual.

Donos de gato têm, através do convívio com o seu animal, a possibilidade diária de exercitar a aceitação, e consequentemente, tomam como natural que os outros sejam como são. Em geral são pessoas que dão mais espaço àqueles com os quais se relacionam e percebem mais através da observação e menos através das palavras. Também é assim a linguagem felina, pois quase sempre ela se faz silenciosa. O gato observa muito antes de chegar até onde quer chegar.

Quem tem gato sabe que um gato não dissimula afeto. Não conhece o que é ser obrigado. Não se rende às ordens humanas. Para o gato, seu dono é um companheiro pelo qual ele terá uma imensa admiração ou aversão. E a admiração dele nunca é gratuita. Ela é conquistada no dia a dia e exige que o dono seja uma pessoa confiante.

Ter um gato é no fundo um jogo de conquista. Um jogo de verdades sem medidas. De sorrisos velados ou dentes serrados, tudo isso sem alardes. Um dono de gato provavelmente não curtirá relacionamentos recheados de demonstrações gritantes de afeto. Não terá necessidade de controlar os passos do seu parceiro. Não mendigará afeto ou tentará comprá-lo com o que é efêmero. Nada se obriga numa relação verdadeira entre duas pessoas. Na relação com um gato também não.

Um gato não ama por piedade ou interesse, ama porque reconhece em seu dono uma alma livre e poderosa, dotada de firmeza e cheia de amor-próprio, assim como a dele.

Dessa forma, não é difícil perceber que no quesito relacionamento donos de gatos estão um passo à frente. Respeitar a forma de amar do outro é muito importante para garantir a saúde de qualquer relação. E isso, dentre outras coisas, é algo muito bem sabido por quem tem um bichano ao alcance da mão.

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Eu poderia dizer que a gratidão vem do latim “gratia”, que significa graça, ou que vem de “gratus”, que quer dizer agradável, mas para mim a gratidão vem mesmo do coração. Não sou linguista, portanto não sei se existe alguma relação semântica para o que vou dizer, mas acho que a gratidão se liga muito bem ao conceito de “grátis”, aquilo que damos sem exigir nada em troca.

A gratidão é um reconhecimento espontâneo, bem-disposto e não imediato a tudo que nos acontece. É uma resposta otimista que nos faz enxergar mais além.

Aprendi com a vida a ser grata pelo dia de hoje, pois o meu hoje (e o seu) é único, como nenhum outro. Um dia perfeito para novos aprendizados e formas de ver a vida. Também sou grata pelo ontem e por todos ensinamentos do passado que me trouxeram até aqui.

Agradeço pelas pessoas raras que de alguma forma me tocaram profundamente a alma. Pessoas que com carinho e simplicidade tornaram meus dias mais leves. Pessoas que chegaram na hora certa dizendo o que meus ouvidos precisavam ouvir. Pessoas acometidas de uma vontade louca de tornar a vida do outro melhor.

Agradeço pelas pessoas que foram meu paraíso na Terra. Pessoas cujo colo me foram bálsamo e alento. Pessoas diante das quais eu pude, sem constrangimentos, me entregar às lagrimas ou à alegria desmedida, sem parecer queixosa ou exibida por isso.

Agradeço também às pessoas que foram meu inferno. Aquelas que me queimaram com um fogo que angustia. Que me negaram um assento em dias cansativos, pois por conta delas descobri que não podia ficar onde estava. Que Deus guardava outros caminhos mais dignos, mais compensadores e justos para mim.

Agradeço por aqueles que foram profetas em minha vida. Que me apontaram as estrelas mais distantes e disseram que eu poderia alcançá-las. Que disseram das montanhas de onde eu poderia avistar novas e inebriantes possibilidades.

Agradeço às pessoas que me chegaram com palavras de fé e esperança e me devolveram a ânsia de acreditar no melhor. Agradeço às pessoas que me contaram seus pequenos segredos para uma vida feliz, que partilharam comigo impressões, acreditando que eu as ouviria e compreenderia.

Agradeço àqueles que foram meus pequenos milagres. Que seguraram forte minha mão e confiaram que eu tudo podia. Que disseram que eu seria capaz e que nunca duvidaram disso, mesmo quando eu duvidei.

Agradeço aos estranhos que me disseram com poucas palavras o que alguns amigos nunca me disseram em uma vida. E agradeço aos amigos que se tornaram estranhos, pois eu pude entender através deles que eu não queria ser assim também.

Agradeço àqueles que me ajudaram a vencer minhas dificuldades. Àqueles que notaram que eu passava por apuros e me estenderam a mão sem que eu precisasse gritar por socorro. Agradeço àqueles que souberam ler em meus olhos a minha verdade e me ofertaram companhia sincera em dias de sol ou de chuva.

Sou grata por tudo. Pelo que passou, pelo que hoje é e também pelo que virá. Aprendi lendo um livro que eu poderia agradecer não só pelo ontem e pelo hoje, mas também pelo amanhã, na certeza de que ele seria maravilhoso, cheio de bons acontecimentos, lições e pessoas preciosas.

Então, eu que agradecia o ontem e o hoje, passei a agradecer baixinho o dia que ainda não tinha nascido, dizendo: “Deus, obrigada pelo dia que ainda virá, por ele ser tão lindo, cheio de tantas alegrias e aprendizados. Por nele encontrar tudo o que eu preciso para me ver completa e feliz. Por nele ser o melhor que posso ser. Que amanhã eu possa ser o milagre de alguém. Que amanhã minhas palavras possam curar feridas da alma e meus abraços possam aquecer corações feridos. Que amanhã eu não seja fogo ou lixa, mas mar sereno e sem fim para aqueles que anseiam se banhar em águas mansas”.

Assim, a vida foi se fazendo e eu fui compreendendo que a gratidão é a linha que une todos os tempos do nosso viver. Que a gratidão é uma coisa bonita e gentil, um sentimento sincero que mora no peito daqueles que guardam para a vida um jeito bonito de olhá-la, dizê-la e vivê-la.

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