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Todas as vezes que destruíram meus sonhos, eu os refiz. Um por um. Costurei todas as partes, colei todos os cacos, pintei todas as lacunas, até que, contente, os vi refeitos.

E quando não foram os meus sonhos, mas eu a ser diminuída. Sangrei minhas dores, chorei minhas feridas, mas cuidei de cada uma delas para, depois de tudo, me ver ainda mais forte.

Pois, não sou de vidro, para me quebrar e morrer no piso da desesperança. Não sou de pano para que me façam de trapo e pano de chão. Não sou de ferro, para virar faca e espeto.

Eu sou de carne. Sou de carne, osso e sentimento. E chorei por dentro todos os gritos que me forçaram os ouvidos. Estremeci pelas acusações grosseiras. Pela falta de amor. Mas não caí, pois não sou castelo de cartas que se desfaz com um sopro, tão pouco um de areia que pode ser estupidamente pisoteado.

Tenho paciência de sobra, mas o tempo me ensinou que é melhor tomar distância de quem não nos estima.

Sigo então meu caminho, reconstruindo meus alicerces em outros cantos. Cantos gentis nos quais borboletas não apenas voam, mas dançam.

Não tenho mais medo de buscar no mundo novos caminhos. Não tenho mais medo de me fazer bonita e soltar meu coração, como quem solta um cão encoleirado, em um grande parque repleto de flores lindas e selvagens.

E quando permito que meu coração corra de um lado para o outro, animado e exultante, esqueço das coisas ruins e sigo em frente.

Se me gritam ao longe, como quem grita uma blasfêmia. Faço que não é comigo. Não dou mais bola para quem ofende. Quero distância dos que gostam de ser os donos da verdade. Não quero ser dona de nada, nem de ninguém. Fui despertada de um sonho por um príncipe que saiu para comprar cigarros e não voltou. Os contos de fada não me cabem mais.

Por favor, não me chamem de princesa. Eu cresci. Virei rainha de mim. Não vivo mais nesse reino no qual um rei profano perambula na barriga das pessoas. Não quero ter razão. Quero ter paz para viver tudo que sou.

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De acordo com o dicionário temos por casamento o vínculo entre duas pessoas que passam a ter deveres conjugais, no entanto, cá entre nós, sabemos que o casamento é muito mais que isso. Mais que a consagração da união entre duas pessoas que se amam, com ou sem festa, o casamento diz de amor, compreensão, companheirismo, maturidade, aceitação e dinamismo em encontrar as melhores soluções conjuntas.

Apesar de ser um tema complexo, o casamento foi primorosamente dedilhado por muitos diretores. Na lista abaixo vocês encontrarão dez filmes que nos incitam a pensar mais à respeito do que vem depois do famoso “Felizes para sempre”.

1 – CENAS DE UM CASAMENTO, Ingmar Bergman, 1973

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A dor e a raiva, a paixão e o amor, o riso e as lágrimas. Todas as “estações” do que é estar vivo e partilhar vida são tratadas nesse belo filme. Apreciado principalmente na Suécia, país onde a tv o exibiu em forma de minissérie antes, “Cenas de um casamento” não nos fala de forma doce ou leve sobre as relações humanas. Em diálogos ácidos, os personagens, dentre eles o casal Johan e Marianne, deixam aflorar seus mais ocultos ressentimentos e amarguras; tudo condizente com o cinema de natureza psicológica do diretor Ingmar Bergman. O filme tem um efeito quase documental. O espectador percebe cada gesto, cada sorriso como se estivesse ao lado dos personagens em um enredo demasiadamente humano, que carrega questionamentos acerca de temas como a existência, amor, relações familiares, dentre outros.

2 – SHIRLEY VALENTINE, Lewis Gilbert, 1989

Shirley Valentine é uma dona de casa que todos os dias arruma a casa, passa roupa e prepara o jantar para o marido. Em certo ponto Shirley decide seguir seus mais loucos sonhos e isso inclui uma viagem para a Grécia. Engana-se quem pensa que vai encontrar nesse filme uma comédia romântica clichê. O texto esbanja um senso de humor ácido, amparado por uma estrutura deliciosamente farsesca. A protagonista, vivida competentemente por Pauline Collins, conversa com o público durante todo o filme e o faz tão confidente quanto as paredes de sua casa, que a escutaram por longos anos. Filme primoroso!

3 – COLCHA DE RETALHOS,  Jocelyn Moorhouse, 1995

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O filme “Colcha de retalhos” narra as experiências de vida de um grupo de mulheres maduras que costumam reunir-se a cada ano para confeccionar uma colcha de retalhos, cujo tema escolhido na ocasião é “onde mora o amor”. Cada uma delas borda um pedaço de pano que se relaciona metaforicamente ao que sentem. Ao final elas unem todos os pedaços formando uma linda colcha artesanal bordada de histórias. Essas histórias são no filme objetos de estudo da mestranda Finn, uma jovem que se encontra dividida entre casar-se com o homem que ama e sua liberdade. Esse é um daqueles filmes absurdamente tocantes. Cheio de simbologias, reflexões e ensinamentos, “Colcha de retalhos” dedilha carinhoso as relações humanas, deixando ao final uma sensação boa de quero mais. Imperdível!

4 – ENCONTROS E DESENCONTROS, Sofia Coppola, 2004

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Duas pessoas se encontram por acaso em um hotel em Tóquio. Ambas são estrangeiras, casadas e estão lá de passagem. Uma é Bob Harris: famoso ator americano de meia idade que foi para lá sozinho, para gravar um comercial de Whisky. Ele se mostra entediado, sofre de insônia, está casado há 25 anos e tem um casal de filhos, no entanto é um marido e pai ausente. A outra é Charlotte, uma moça de Nova York que está acompanhando o marido fotógrafo, com quem se casou há dois anos, contudo ela pouco o vê. Ela e Bob se encontram no hotel e aos poucos se aproximam. Cria-se entre eles uma imensa empatia. Esse encontro tem certo tom erótico, mas o que prevalece entre ambos é o desejo de compartilhar experiências. De forma delicada o filme, dentre outras coisas, nos faz refletir acerca do casamento e do que deveria ser inerente a ele.

5 – FOI APENAS UM SONHO, Sam Mendes, 2009

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Nos EUA, na década de 50, a vida se resumia, para o homem, ter um mesmo emprego por anos, casar, ter filhos e comprar uma casa pela qual pagaria pelo resto da vida e, para a mulher, usufruir de seu lar recheado de eletrodomésticos e fazer dele o local perfeito para uma vida perfeita, no entanto uma vida perfeita não existe. April e Frank formam o típico casal aparentemente feliz dessa década e tudo parece correr como deveria, contudo, ambos não se sentem realizados. Esse filme toca em um tema delicado: a frustração de se conformar em nascer, crescer, trabalhar, casar, ter filhos, casa própria, envelhecer e morrer – tudo isso sem muitos riscos e sem grandes entusiasmos.

6 – MAIS UM ANO,  Mike Leigh, 2010

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O que fazer para manter a felicidade tão próxima por tanto tempo? O longa inglês “Mais um ano”, um filme simpático com diálogos sensacionais, busca responder a essa pergunta. Na trama, um casal (interpretado por Jim Broadbent e Ruth Sheen) sempre tenta ajudar amigos a saírem de problemas. Durante um período, que definimos como ciclos em estações do ano, a casa deles vira um verdadeiro consultório para ajuda e conselhos que contam com diálogos muito bem escritos. Um filme para cinéfilos pacientes que trata da vida e do tempo no qual ela pacientemente se faz.

7 – TERÇA, DEPOIS DO NATAL, Radu Muntean, 2010

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Em “Terça, depois do Natal” o personagem Paul está diante de um impasse rodrigueano: a preparação do seu Natal promete ser duplamente torturante porque ele é casado com Adriana há dez anos e há seis meses tem como amante Raluca, a dentista da sua filha. Assim como o trágico herói de Nelson Rodrigues que não aguenta mais almoçar duas vezes em casas diferentes, Paul tem que conciliar a agenda de fim de ano de sua família com a da família de Raluca. A banalidade do dia a dia, interações mecânicas, horários e compromissos cumpridos por inércia interessam ao diretor romeno Radu Muntean e tudo isso pode ser encontrado nesse filme inquietante.

8 – NAMORADOS PARA SEMPRE, Derek Cianfrance, 2011

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Nesse belo filme acompanhamos as dificuldades de um casal durante o casamento. Apesar do título, essa não é uma história romântica. Dean (Ryan Gosling) e Cindy (Michelle Williams), ele pintor de casas e ela enfermeira, tem uma filha pequena e enfrentam problemas no relacionamento após dez anos juntos. O filme vai e volta no tempo como se tentasse descobrir o que deu errado no caminho desses dois. Para Dean a resposta parece ser “nada”, mas para Cindy as coisas não parecem tão tranquilas assim. O diretor e co-roteirista levou mais de uma década para levar o filme às telas, tendo declarado que o roteiro teve mais de 67 versões anteriores. O resultado é um excelente filme, com ótimas atuações, que prende a atenção do público do começo ao fim.

9 – ANTES DA MEIA-NOITE, Richard Linklater, 2013

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Em 1995, o diretor Richard Linklater, ao lado dos atores Ethan Hawke e Julie Delpy, lançou um dos romances mais interessantes do cinema, a jornada de Jesse e Celine em “Antes do Amanhecer”. “Antes da meia-noite” é último filme dessa trilogia. Nele Jesse e Celine vão passar uma temporada na Grécia. Nessa viagem o casal conversa sobre os muitos anos juntos e enfim param para pensar e analisar tudo o que viveram até ali. Questões como “e se você não tivesse falado comigo naquele trem?” são colocadas em pauta. Eles discutem sobre os anos que passaram juntos e principalmente sobre as escolhas que fizeram, além, é claro, de falarem do futuro, onde Celine deseja aceitar um novo trabalho, enquanto Jesse fala sobre seu desconforto em viver longe do filho do primeiro casamento. Um filme primoroso, assim como os dois anteriores.

10 – GAROTA EXEMPLAR, David Fincher, 2014

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“Garota Exemplar” não só atinge a expectativa de quem esperava por mais um grande trabalho de David Fincher, como ainda traça uma discussão muito interessante sobre a vida adulta, com um casal que é levado pela vida ou pela conveniência a se transformar num tipo de gente que antes detestava: o marido frio e a mulher controladora. Adaptação de livro homônimo de Gillian Flynn, que também assume o papel de roteirista, o longa conta a história de Nick e Amy Dunne. Depois de um casamento dos sonhos, eles se veem obrigados a deixar a vida em Nova York para mudarem para Missouri. No dia em que comemoram o aniversário de casamento, Nick retorna para casa e encontra o lugar revirado. Ele não consegue encontrar a esposa e logo chama a polícia. A partir daí a trama se desenrola com muitas surpresas. Um filme no mínimo interessante!

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Eu nunca pensei no que faria se um dia trombasse com a dona Felicidade. Até que um dia eu a encontrei sem querer, em uma manhã sem sol, atrás do balcão de uma farmácia.

Era uma senhora de semblante gentil. Pesados óculos sobre a face e um jaleco branco. Sorria de forma cordial e respondia atenta a todas as dúvidas dos clientes adoentados. A dona Felicidade era prática e direta e assim o foi quando lhe perguntei sobre o nome em seu crachá. Nele lia-se “Felicidade Cristina”

Indaguei-lhe se esse era seu nome e ela me confirmou com um largo contentamento no olhar. Disse-me que não era para se chamar Felicidade, apenas Cristina, mas uma avó portuguesa havia falecido, daí os pais decidiram homenagear a matriarca.

Apesar de todas as recusas em assumir a beleza de seu nome eu não pude deixar de me alegrar por ele e em minha cabeça eu só pensava “que benditos foram seus pais dona Felicidade”, no entanto dona Felicidade emendou uma última explicação dizendo que ninguém a chamava de Felicidade. Que comumente, quando se dirigiam a ela, usavam o segundo nome ou o diminutivo dele.

Estava claro, a dona Felicidade não estava muito à vontade em ser felicidade. Pensei um pouco a respeito e finalmente compreendi o que ela estava tentando me dizer.

Por mais louco que possa parecer, muita gente tem receio de chamar a felicidade, tem receio de abraçá-la sem pudores, tem receio de dançar com a felicidade, como se a felicidade fosse uma coisa proibida, meio profana e vergonhosa. Como um riso estridente que salta para os ares chamando a atenção de olhos sisudos.

Então, eu pensei na dona Felicidade em algum bailinho da vida, assim de canto, sentada em uma cadeira, sem nenhum pretendente que a quisesse tirar para dançar. As amigas, a Tristeza, a Ansiedade, a Pressa, a Mentira todas elas estavam bailando livres, leves e soltas, só a dona Felicidade que não. Então a dona Felicidade quis esquecer que era felicidade e passou a dizer pro mundo que era só Cristina ou Cris. Como se fosse pecado ser feliz.

Dona Felicidade, eu me recuso a chamá-la de Cristina. Se eu a encontrasse na rua gritaria “Ei, dona Felicidade!”. Faria do mundo um lugar mais alegre, começando por você, começando por chamá-la pelo teu belo nome, dizendo-o estrondoso, para fazer inveja a todas essas tuas amigas que estão tão na moda. Fazendo inveja a todos os que tentam sufocá-la e extirpá-la do mundo para que as pessoas não lembrem que felicidade é coisa preciosa. Que toda felicidade é bonita de ver e sentir. Que felicidade é coisa bendita que não requer batida na madeira, nem superstição.

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Passei a tranca em todas as portas. Baixei as cortinas. Liguei alto o som do rádio, que ficou tocando jingles e comerciais com um entusiasmo forçado, tão próprio dos tempos de hoje.

Joguei as cores das roupas fora. Pendurei meus vestidos pretos nos cabides. Deixei que toda cor se fosse. Me tranquei em mim. Inventei um sorriso para o mundo. Inventei um contentamento para o coração. Puxei para perto o vinho tinto e fingi esquecer meus amores.

Então um dia, um dia nem mais bonito nem mais feio que os demais, você me apareceu. E ignorando todas as trancas, ignorando tudo que fiz para te manter longe, se aproximou de mim e disse que eu poderia amá-lo.  Que eu era livre para sentir. Disse-me da importância de guardar os amores, mesmo os mais trôpegos. Falou-me que eles cabiam bem naquele espaço oco que jazia em meu peito.

Olhei para as portas e todas ainda estavam trancadas. Virei-me para o rádio, talvez viesse de lá a tua voz, mas ele estava desligado. As cortinas ainda estavam fechadas e eu vestia preto sem que ninguém, a não ser eu, tivesse notado.

Você tinha me visitado em pensamento. Tinha me dedilhado em sonhos e voltado até mim. Não para dizer que nossa história daria certo, porque não daria, mas para me dizer que eu não devia sufocar o meu coração. Que você tinha me amado a seu modo e que me guardava bonita em ti.

Então você sorriu-me, sorriu-me como um anjo da noite, ciente dos teus pecados, beijou-me a face com o teu pensar e partiu como uma brisa serena, deixando-me a sensação boa de lembrar tudo o que não tínhamos vivido. Deixando-me leve para seguir meu caminho, livre para chorar minhas dores tendo por companheiros todos os amores meus.

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Quando éramos crianças queríamos ser professores, médicos, cantores e astronautas. Brincávamos, despreocupados, de superpoderes, até que um dia nos disseram que deveríamos escolher uma única coisa para ser, uma plausível.

E nós, quase sem querer, aceitamos, mesmo diante da nossa rica pluralidade, que deveríamos ter uma única designação no futuro: médico ou dentista, arquiteto ou engenheiro, psicólogo ou jardineiro. E nada de superpoderes.

Assim, pouco a pouco, fomos nos encolhendo para caber numa palavrinha, quase como um espirro. Mas a gente não cabe aí não.

No papel, quando nos pedem uma profissão, dizemos isso ou aquilo. Mas, cá entre nós, sabemos que um único termo nem de longe nos define.

Muita gente não vê, muita gente não sabe, mas somos como Clark Kent. Disfarçamos bem tudo que somos. Mas há quem saiba olhar com o coração e enxerga em nós um universo. Há também uns, mais endurecidos, que nos veem apenas como sujeitos que exercem uma profissão. Fiquemos com aqueles que enxergam um mundo em nós.

Quantos professores jardineiros existem por aí. Quantos médicos escritores estão pelo mundo. Quantas donas de casa cientistas. Quanta beleza existe naquilo que somos de forma natural. Naquilo que somos quando alguém grita por orientação.

Que a gente possa ser o melhor que carregamos, com nossa intenção mais carinhosa, com nossa ação mais imediata dentro daquilo que amamos e que podemos dar ao universo.

Quantas dançarinas engenheiras existem mundo afora criando casinhas para passarinhos. Quantos motoristas são ótimos psicólogos. Quantos pais são bons técnicos de futebol. Quantas mães são ótimas enfermeiras. Quantas amigas são como mágicos, sempre nos surpreendendo e nos fazendo sorrir.

Somos tantos, somos tão lindos naquilo que podemos ser sem rótulos. Somos tão profundos em nossas aptidões.

Tiremos da cabeça essa coisa de que a gente é só isso ou aquilo.

O que eu mais vejo por aí é gente ignorando seus superpoderes e abraçando, sem pudores, a tristeza e o desânimo de uma vida rotulada.

Para fazer a diferença não é preciso visão de raio x ou PHD em seja lá o que for. Abraços, beijos, palavras de alento, peitos abertos para receber aqueles que amamos, exemplos e ensinamentos diários nos fazem voar, sem tapete mágico, até um lugar sagrado: o coração do outro.

Não nos contaram que um abraço vale mais que foguete espacial. Esconderam da gente que já nascemos encantados, que não precisamos correr para alcançar alguma poção mágica e milagrosa no final do arco-íris. Ficaram bem quietinhos para a gente esquecer dos pequenos milagres que realizamos diariamente, sem alardes.

Não inventaram ainda um nome para aqueles que mudam a vida do outro com um sorriso, com uma palavra, com um gesto carinhoso. Não inventaram um nome para dizer tudo que somos e o que representamos na vida daqueles que tocamos.

Quando inventarem, talvez aí, possamos caber em uma palavra. Até lá, não.

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Vida, dai-me tempo. Tempo para crescer, para aprender, para fazer, desfazer e refazer.

Vida, dai-me tempo, para amar, para com o fim novamente recomeçar. Dai-me tempo para me firmar, para colocar na vida todos os meus sonhos. Para desistir e novamente acreditar.

Vida, dai-me tempo para esbarrar com o grande amor. Para abrir os olhos e finalmente enxergar. Dai-me tempo para eu tentar, me arrepender, me recriminar, mas finalmente me perdoar.

Dai-me tempo para viajar, por novos caminhos, por novas peles, por outros olhos. Dai-me tempo para amar até doer, para deixar-me amar também. Dai-me tempo para aprender o valor do meu amor e saber quando e como o devo expressar.

Vida, dai-me tempo para ver crescer as mudas e vidas que plantei. Dai-me tempo para ver o sol secar a chuva e a chuva lavar a alma. Dai-me tempo para me aprimorar, para seguir rumo ao que é bom sem culpa, sem medos e receios.

Dai-me tempo para entender o que ainda não entendo, para que eu possa respeitar as épocas de plantio, colheita e podas. Para que eu possa respeitar essa sincronia bonita da natureza, dentro da qual tudo se fortalece, tudo se faz e refaz na hora certa.

Vida, dai-me tempo para reatar laços perdidos, para bem querer os que um dia não me quiseram. Dai-me tempo para me curar das pedradas. Para me recompor dos tombos alçados por pés hostis.

Dai-me tempo, vida, para que eu possa refazer meu sorriso. Para que eu possa me reinventar. Para que eu possa esquecer o que me disseram aqueles que não acreditaram em mim.

Dai-me tempo para transformar o mundo com a minha presença. Dai-me tempo para fazer outros filhos e encontrar os amigos que ainda não conheço. Para amar infindáveis vezes e encontrar no amor o bálsamo para minhas dores. Vida, dai-me tempo para ver os que amo vencer.

Vida, dai-me tempo para eu ser tudo que posso ser, para eu viver tudo que posso viver, para eu realizar tudo que minha capacidade alcançar e ser minha melhor versão, a mais bonita, a mais feliz, a mais amistosa.

Vida, dai-me tempo para que eu, nesse tempo, tudo possa.

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Vamos acertar nossos relógios. Vamos cantar a beleza do dia nos amando. E quando o sol nascer e os pássaros cantarem loucamente, que nós possamos brindar a beleza de um novo dia com os sussurros e gemidos do nosso amor.

Quando eu te buscar, ainda no escuro, quando eu sussurrar para te acordar, sorria-me, pois te acordo para o amor. Sorria-me, pois te chamo para comemorar o sol e o recomeço, para deitar nossos louvores à luz, nos amando, livres de nossas armaduras. Nos amando nus e suados, abafando a razão com gritos de sentimentos bons.

Quando os pássaros festejarem, que a gente possa cantar nossa alegria em uma festa só nossa, dentro da larga e confortável intimidade que nos cabe. Em uma festa que nasce no raiar do dia para nele se alongar com o melhor de nós.

Não me diga que a hora não é boa. Que não se acorda um homem de seus sonhos. Não reclama do amor que molha seus lábios com beijos doces, que o chama para dançar o dia.

Acorda do sonho e faz ele realidade no corpo meu. Acorda do sono e veja que além das montanhas é dia. Que lá fora é luz. Que aqui dentro é luz também.

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