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Quando eu a vejo levantar da cama fico pensando no tipo de cara que você foi para ela. Certamente um tipo que não soube amá-la da forma como ela merecia ser amada.

Acho que o sorriso dela te atraiu, te chamou para perto, mas depois que vocês estavam juntos você se apoderou dela e quis represá-la em você. Mas ela é mar, não se represa o mar. Ela é imensidão na qual só os que são de verdade conseguem se jogar.

Ela é tudo que um homem deseja em uma só mulher. Ela é a menina que olha atenta para as mágicas do andarilho trôpego. Ela é a soberana que sentencia os que se aproveitam da boa vontade dela. Ela é um universo entre uma e outra.

Fico pensando em como você conseguia olhá-la nos olhos. Em como conseguia sequer beijá-la. Você não conseguiu enxergar o tamanho dos sonhos dessa mulher. Não conseguiu nem mesmo partilhar das felicidades dela sem pensar em uma forma desfazê-las como quem desfaz um castelo de areia.

Cobrou explicações. Taxou o amor. Transformou-o em tributo o qual cobrava alto. Você não reparou que ela andava triste? Triste pela sua insistência em sempre ter razão. Que relação louca era essa na qual a errada sempre era ela? Ela é a mais certa das coisas que me aconteceu.

Cara, seu sentimento era fim e não começo. Seu ciúme era doentio e você tinha coragem de dizer que isso que sentia era amor.

Somos todos humanos, somos passíveis de acertar e de errar em nossas escolhas e você achou que ela não podia escolher absolutamente nada. Que você tinha o direito de dizer como ela deveria tocar a vida. Você se auto coroou o rei do universo dela. Forçando sua presença, fazendo dela gato e sapato das suas vontades.

Quantas vezes você a viu trocada e na hora de saírem arranjou uma briga? Deixou-a chorando, linda e infeliz, depois de fazê-la experimentar a expectativa do que poderia ser bom.

Você achou que ela iria chorar para sempre. Mas em uma dessas vezes ela enxugou as lágrimas e se levantou. Foi ser feliz. Foi conhecer o mundo. Viajou para longe e para bem perto. Dentro dela. Se conheceu como nunca antes. Permitiu-se esperar pelo amor de verdade e soube reconhecê-lo.

O mundo se encantou com ela, eu me encantei com ela e tive a felicidade de encontrá-la em meu caminho. De reconhecer a luz que vinha dela. Tive a coragem de ouvir o silêncio dos lábios dessa mulher e de me apaixonar por seus loucos dias de tormenta. Tive coragem de amá-la sem exigir que ela fosse outra que não ela mesma.

O amor é para os bons navegantes. Ele não é só calmaria. O amor é para os fortes e eu nela me joguei sem medo de me afogar, sem medo de amar, sem medo de ser feliz.

Algumas pessoas não sabem reconhecer o que têm. Não dão valor aos que estão ao lado. Não adianta querer voltar. Você teve sua chance, agora o coração dela é meu.

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Existem muitos textos falando de gentileza hoje em dia. Quase todos parecem dizer que a gentileza é a chave para que se abram as portas do coração. Eu concordo, ser gentil é sublime em um mundo de palavras gritadas ou automáticas. No entanto, quero falar aqui sobre a empatia, aquela qualidade linda que nos coloca no lugar do outro.

Independente desse outro ser conhecido ou não, o que sabemos pode mudar sua vida. E não é preciso que ministremos uma aula para isso, muitas vezes uma palavra pode orientar de forma a tornar a vida de alguém mais segura e melhor.

É comum ouvirmos a frase “todo mundo sabia” quando alguma fatalidade acontece, (como a ocorrida com o ator Domingos Montagner) no entanto é claro que a vítima não sabia do perigo que corria. Todos sabiam, menos ela. O pensamento recorrente nesses momentos, aquele que indica “que todo mundo sabia” parece caber muito bem em alguma desculpa, mas não é verdadeiro.

Eu não tenho condições de saber todas as imprevisibilidades que se anunciam em meu caminho. Nenhum de nós tem. Com cautela tentamos prever e fazer o nosso melhor. Mas mesmo assim podemos não saber que quando o mar se afasta da costa por quilômetros é provável que um tsunami esteja a caminho. Também podemos não saber que um material verde e luminescente, descartado a esmo, pode ser radioativo. Também podemos não prever em quais partes de um rio ou mar não podemos entrar se não existirem placas por perto. Mas, podemos ter a felicidade de encontrar em nosso caminho alguém que saiba aquilo que não sabemos.

No Brasil, em grande parte das ruas o carro tem preferencial, tendo o pedestre a orientação de atravessar na faixa, fazendo bom uso do farol, quando disponível. No entanto, na Europa é comum que os carros parem quando alguém deseja atravessar a rua. Muitos estrangeiros já foram atropelados em terras brasileiras por não saberem que aqui não é como lá e tantos outros se salvaram porque alguém felizmente os orientou antes que saltassem na frente de algum veículo. Essa parece ser uma informação corriqueira, de senso comum, mas não é.

Quando pudermos orientar alguém acerca de algo que pareça de domínio público, se a situação nos permitir, é importante que o façamos de forma empática. A vida precisa de respeito e carinho e se tivermos alguma chance de demonstrarmos carinho por ela, nem que para isso pareçamos loucos, devemos fazê-lo.

É preferível gritar “cuidado com o carro”, “essa área é imprópria para o mergulho”, “esse procedimento é perigoso”, “esse caminho não é o melhor” que lamentar a palavra silenciada.

As vidas salvas por um gesto empático não aparecem nos jornais, as perdidas sim. Façamos a diferença, orientemos quando possível, antes que o improvável se torne inevitável.

Ninguém tem obrigação de saber, mas o nosso dever como seres dotados de bons sentimentos é o de ensinar e orientar.

Diante da empatia, a vida sempre agradece.

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Todas as vezes que destruíram meus sonhos, eu os refiz. Um por um. Costurei todas as partes, colei todos os cacos, pintei todas as lacunas, até que, contente, os vi refeitos.

E quando não foram os meus sonhos, mas eu a ser diminuída. Sangrei minhas dores, chorei minhas feridas, mas cuidei de cada uma delas para, depois de tudo, me ver ainda mais forte.

Pois, não sou de vidro, para me quebrar e morrer no piso da desesperança. Não sou de pano para que me façam de trapo e pano de chão. Não sou de ferro, para virar faca e espeto.

Eu sou de carne. Sou de carne, osso e sentimento. E chorei por dentro todos os gritos que me forçaram os ouvidos. Estremeci pelas acusações grosseiras. Pela falta de amor. Mas não caí, pois não sou castelo de cartas que se desfaz com um sopro, tão pouco um de areia que pode ser estupidamente pisoteado.

Tenho paciência de sobra, mas o tempo me ensinou que é melhor tomar distância de quem não nos estima.

Sigo então meu caminho, reconstruindo meus alicerces em outros cantos. Cantos gentis nos quais borboletas não apenas voam, mas dançam.

Não tenho mais medo de buscar no mundo novos caminhos. Não tenho mais medo de me fazer bonita e soltar meu coração, como quem solta um cão encoleirado, em um grande parque repleto de flores lindas e selvagens.

E quando permito que meu coração corra de um lado para o outro, animado e exultante, esqueço das coisas ruins e sigo em frente.

Se me gritam ao longe, como quem grita uma blasfêmia. Faço que não é comigo. Não dou mais bola para quem ofende. Quero distância dos que gostam de ser os donos da verdade. Não quero ser dona de nada, nem de ninguém. Fui despertada de um sonho por um príncipe que saiu para comprar cigarros e não voltou. Os contos de fada não me cabem mais.

Por favor, não me chamem de princesa. Eu cresci. Virei rainha de mim. Não vivo mais nesse reino no qual um rei profano perambula na barriga das pessoas. Não quero ter razão. Quero ter paz para viver tudo que sou.

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De acordo com o dicionário temos por casamento o vínculo entre duas pessoas que passam a ter deveres conjugais, no entanto, cá entre nós, sabemos que o casamento é muito mais que isso. Mais que a consagração da união entre duas pessoas que se amam, com ou sem festa, o casamento diz de amor, compreensão, companheirismo, maturidade, aceitação e dinamismo em encontrar as melhores soluções conjuntas.

Apesar de ser um tema complexo, o casamento foi primorosamente dedilhado por muitos diretores. Na lista abaixo vocês encontrarão dez filmes que nos incitam a pensar mais à respeito do que vem depois do famoso “Felizes para sempre”.

1 – CENAS DE UM CASAMENTO, Ingmar Bergman, 1973

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A dor e a raiva, a paixão e o amor, o riso e as lágrimas. Todas as “estações” do que é estar vivo e partilhar vida são tratadas nesse belo filme. Apreciado principalmente na Suécia, país onde a tv o exibiu em forma de minissérie antes, “Cenas de um casamento” não nos fala de forma doce ou leve sobre as relações humanas. Em diálogos ácidos, os personagens, dentre eles o casal Johan e Marianne, deixam aflorar seus mais ocultos ressentimentos e amarguras; tudo condizente com o cinema de natureza psicológica do diretor Ingmar Bergman. O filme tem um efeito quase documental. O espectador percebe cada gesto, cada sorriso como se estivesse ao lado dos personagens em um enredo demasiadamente humano, que carrega questionamentos acerca de temas como a existência, amor, relações familiares, dentre outros.

2 – SHIRLEY VALENTINE, Lewis Gilbert, 1989

Shirley Valentine é uma dona de casa que todos os dias arruma a casa, passa roupa e prepara o jantar para o marido. Em certo ponto Shirley decide seguir seus mais loucos sonhos e isso inclui uma viagem para a Grécia. Engana-se quem pensa que vai encontrar nesse filme uma comédia romântica clichê. O texto esbanja um senso de humor ácido, amparado por uma estrutura deliciosamente farsesca. A protagonista, vivida competentemente por Pauline Collins, conversa com o público durante todo o filme e o faz tão confidente quanto as paredes de sua casa, que a escutaram por longos anos. Filme primoroso!

3 – COLCHA DE RETALHOS,  Jocelyn Moorhouse, 1995

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O filme “Colcha de retalhos” narra as experiências de vida de um grupo de mulheres maduras que costumam reunir-se a cada ano para confeccionar uma colcha de retalhos, cujo tema escolhido na ocasião é “onde mora o amor”. Cada uma delas borda um pedaço de pano que se relaciona metaforicamente ao que sentem. Ao final elas unem todos os pedaços formando uma linda colcha artesanal bordada de histórias. Essas histórias são no filme objetos de estudo da mestranda Finn, uma jovem que se encontra dividida entre casar-se com o homem que ama e sua liberdade. Esse é um daqueles filmes absurdamente tocantes. Cheio de simbologias, reflexões e ensinamentos, “Colcha de retalhos” dedilha carinhoso as relações humanas, deixando ao final uma sensação boa de quero mais. Imperdível!

4 – ENCONTROS E DESENCONTROS, Sofia Coppola, 2004

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Duas pessoas se encontram por acaso em um hotel em Tóquio. Ambas são estrangeiras, casadas e estão lá de passagem. Uma é Bob Harris: famoso ator americano de meia idade que foi para lá sozinho, para gravar um comercial de Whisky. Ele se mostra entediado, sofre de insônia, está casado há 25 anos e tem um casal de filhos, no entanto é um marido e pai ausente. A outra é Charlotte, uma moça de Nova York que está acompanhando o marido fotógrafo, com quem se casou há dois anos, contudo ela pouco o vê. Ela e Bob se encontram no hotel e aos poucos se aproximam. Cria-se entre eles uma imensa empatia. Esse encontro tem certo tom erótico, mas o que prevalece entre ambos é o desejo de compartilhar experiências. De forma delicada o filme, dentre outras coisas, nos faz refletir acerca do casamento e do que deveria ser inerente a ele.

5 – FOI APENAS UM SONHO, Sam Mendes, 2009

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Nos EUA, na década de 50, a vida se resumia, para o homem, ter um mesmo emprego por anos, casar, ter filhos e comprar uma casa pela qual pagaria pelo resto da vida e, para a mulher, usufruir de seu lar recheado de eletrodomésticos e fazer dele o local perfeito para uma vida perfeita, no entanto uma vida perfeita não existe. April e Frank formam o típico casal aparentemente feliz dessa década e tudo parece correr como deveria, contudo, ambos não se sentem realizados. Esse filme toca em um tema delicado: a frustração de se conformar em nascer, crescer, trabalhar, casar, ter filhos, casa própria, envelhecer e morrer – tudo isso sem muitos riscos e sem grandes entusiasmos.

6 – MAIS UM ANO,  Mike Leigh, 2010

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O que fazer para manter a felicidade tão próxima por tanto tempo? O longa inglês “Mais um ano”, um filme simpático com diálogos sensacionais, busca responder a essa pergunta. Na trama, um casal (interpretado por Jim Broadbent e Ruth Sheen) sempre tenta ajudar amigos a saírem de problemas. Durante um período, que definimos como ciclos em estações do ano, a casa deles vira um verdadeiro consultório para ajuda e conselhos que contam com diálogos muito bem escritos. Um filme para cinéfilos pacientes que trata da vida e do tempo no qual ela pacientemente se faz.

7 – TERÇA, DEPOIS DO NATAL, Radu Muntean, 2010

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Em “Terça, depois do Natal” o personagem Paul está diante de um impasse rodrigueano: a preparação do seu Natal promete ser duplamente torturante porque ele é casado com Adriana há dez anos e há seis meses tem como amante Raluca, a dentista da sua filha. Assim como o trágico herói de Nelson Rodrigues que não aguenta mais almoçar duas vezes em casas diferentes, Paul tem que conciliar a agenda de fim de ano de sua família com a da família de Raluca. A banalidade do dia a dia, interações mecânicas, horários e compromissos cumpridos por inércia interessam ao diretor romeno Radu Muntean e tudo isso pode ser encontrado nesse filme inquietante.

8 – NAMORADOS PARA SEMPRE, Derek Cianfrance, 2011

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Nesse belo filme acompanhamos as dificuldades de um casal durante o casamento. Apesar do título, essa não é uma história romântica. Dean (Ryan Gosling) e Cindy (Michelle Williams), ele pintor de casas e ela enfermeira, tem uma filha pequena e enfrentam problemas no relacionamento após dez anos juntos. O filme vai e volta no tempo como se tentasse descobrir o que deu errado no caminho desses dois. Para Dean a resposta parece ser “nada”, mas para Cindy as coisas não parecem tão tranquilas assim. O diretor e co-roteirista levou mais de uma década para levar o filme às telas, tendo declarado que o roteiro teve mais de 67 versões anteriores. O resultado é um excelente filme, com ótimas atuações, que prende a atenção do público do começo ao fim.

9 – ANTES DA MEIA-NOITE, Richard Linklater, 2013

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Em 1995, o diretor Richard Linklater, ao lado dos atores Ethan Hawke e Julie Delpy, lançou um dos romances mais interessantes do cinema, a jornada de Jesse e Celine em “Antes do Amanhecer”. “Antes da meia-noite” é último filme dessa trilogia. Nele Jesse e Celine vão passar uma temporada na Grécia. Nessa viagem o casal conversa sobre os muitos anos juntos e enfim param para pensar e analisar tudo o que viveram até ali. Questões como “e se você não tivesse falado comigo naquele trem?” são colocadas em pauta. Eles discutem sobre os anos que passaram juntos e principalmente sobre as escolhas que fizeram, além, é claro, de falarem do futuro, onde Celine deseja aceitar um novo trabalho, enquanto Jesse fala sobre seu desconforto em viver longe do filho do primeiro casamento. Um filme primoroso, assim como os dois anteriores.

10 – GAROTA EXEMPLAR, David Fincher, 2014

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“Garota Exemplar” não só atinge a expectativa de quem esperava por mais um grande trabalho de David Fincher, como ainda traça uma discussão muito interessante sobre a vida adulta, com um casal que é levado pela vida ou pela conveniência a se transformar num tipo de gente que antes detestava: o marido frio e a mulher controladora. Adaptação de livro homônimo de Gillian Flynn, que também assume o papel de roteirista, o longa conta a história de Nick e Amy Dunne. Depois de um casamento dos sonhos, eles se veem obrigados a deixar a vida em Nova York para mudarem para Missouri. No dia em que comemoram o aniversário de casamento, Nick retorna para casa e encontra o lugar revirado. Ele não consegue encontrar a esposa e logo chama a polícia. A partir daí a trama se desenrola com muitas surpresas. Um filme no mínimo interessante!

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Eu nunca pensei no que faria se um dia trombasse com a dona Felicidade. Até que um dia eu a encontrei sem querer, em uma manhã sem sol, atrás do balcão de uma farmácia.

Era uma senhora de semblante gentil. Pesados óculos sobre a face e um jaleco branco. Sorria de forma cordial e respondia atenta a todas as dúvidas dos clientes adoentados. A dona Felicidade era prática e direta e assim o foi quando lhe perguntei sobre o nome em seu crachá. Nele lia-se “Felicidade Cristina”

Indaguei-lhe se esse era seu nome e ela me confirmou com um largo contentamento no olhar. Disse-me que não era para se chamar Felicidade, apenas Cristina, mas uma avó portuguesa havia falecido, daí os pais decidiram homenagear a matriarca.

Apesar de todas as recusas em assumir a beleza de seu nome eu não pude deixar de me alegrar por ele e em minha cabeça eu só pensava “que benditos foram seus pais dona Felicidade”, no entanto dona Felicidade emendou uma última explicação dizendo que ninguém a chamava de Felicidade. Que comumente, quando se dirigiam a ela, usavam o segundo nome ou o diminutivo dele.

Estava claro, a dona Felicidade não estava muito à vontade em ser felicidade. Pensei um pouco a respeito e finalmente compreendi o que ela estava tentando me dizer.

Por mais louco que possa parecer, muita gente tem receio de chamar a felicidade, tem receio de abraçá-la sem pudores, tem receio de dançar com a felicidade, como se a felicidade fosse uma coisa proibida, meio profana e vergonhosa. Como um riso estridente que salta para os ares chamando a atenção de olhos sisudos.

Então, eu pensei na dona Felicidade em algum bailinho da vida, assim de canto, sentada em uma cadeira, sem nenhum pretendente que a quisesse tirar para dançar. As amigas, a Tristeza, a Ansiedade, a Pressa, a Mentira todas elas estavam bailando livres, leves e soltas, só a dona Felicidade que não. Então a dona Felicidade quis esquecer que era felicidade e passou a dizer pro mundo que era só Cristina ou Cris. Como se fosse pecado ser feliz.

Dona Felicidade, eu me recuso a chamá-la de Cristina. Se eu a encontrasse na rua gritaria “Ei, dona Felicidade!”. Faria do mundo um lugar mais alegre, começando por você, começando por chamá-la pelo teu belo nome, dizendo-o estrondoso, para fazer inveja a todas essas tuas amigas que estão tão na moda. Fazendo inveja a todos os que tentam sufocá-la e extirpá-la do mundo para que as pessoas não lembrem que felicidade é coisa preciosa. Que toda felicidade é bonita de ver e sentir. Que felicidade é coisa bendita que não requer batida na madeira, nem superstição.

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Passei a tranca em todas as portas. Baixei as cortinas. Liguei alto o som do rádio, que ficou tocando jingles e comerciais com um entusiasmo forçado, tão próprio dos tempos de hoje.

Joguei as cores das roupas fora. Pendurei meus vestidos pretos nos cabides. Deixei que toda cor se fosse. Me tranquei em mim. Inventei um sorriso para o mundo. Inventei um contentamento para o coração. Puxei para perto o vinho tinto e fingi esquecer meus amores.

Então um dia, um dia nem mais bonito nem mais feio que os demais, você me apareceu. E ignorando todas as trancas, ignorando tudo que fiz para te manter longe, se aproximou de mim e disse que eu poderia amá-lo.  Que eu era livre para sentir. Disse-me da importância de guardar os amores, mesmo os mais trôpegos. Falou-me que eles cabiam bem naquele espaço oco que jazia em meu peito.

Olhei para as portas e todas ainda estavam trancadas. Virei-me para o rádio, talvez viesse de lá a tua voz, mas ele estava desligado. As cortinas ainda estavam fechadas e eu vestia preto sem que ninguém, a não ser eu, tivesse notado.

Você tinha me visitado em pensamento. Tinha me dedilhado em sonhos e voltado até mim. Não para dizer que nossa história daria certo, porque não daria, mas para me dizer que eu não devia sufocar o meu coração. Que você tinha me amado a seu modo e que me guardava bonita em ti.

Então você sorriu-me, sorriu-me como um anjo da noite, ciente dos teus pecados, beijou-me a face com o teu pensar e partiu como uma brisa serena, deixando-me a sensação boa de lembrar tudo o que não tínhamos vivido. Deixando-me leve para seguir meu caminho, livre para chorar minhas dores tendo por companheiros todos os amores meus.

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Quando éramos crianças queríamos ser professores, médicos, cantores e astronautas. Brincávamos, despreocupados, de superpoderes, até que um dia nos disseram que deveríamos escolher uma única coisa para ser, uma plausível.

E nós, quase sem querer, aceitamos, mesmo diante da nossa rica pluralidade, que deveríamos ter uma única designação no futuro: médico ou dentista, arquiteto ou engenheiro, psicólogo ou jardineiro. E nada de superpoderes.

Assim, pouco a pouco, fomos nos encolhendo para caber numa palavrinha, quase como um espirro. Mas a gente não cabe aí não.

No papel, quando nos pedem uma profissão, dizemos isso ou aquilo. Mas, cá entre nós, sabemos que um único termo nem de longe nos define.

Muita gente não vê, muita gente não sabe, mas somos como Clark Kent. Disfarçamos bem tudo que somos. Mas há quem saiba olhar com o coração e enxerga em nós um universo. Há também uns, mais endurecidos, que nos veem apenas como sujeitos que exercem uma profissão. Fiquemos com aqueles que enxergam um mundo em nós.

Quantos professores jardineiros existem por aí. Quantos médicos escritores estão pelo mundo. Quantas donas de casa cientistas. Quanta beleza existe naquilo que somos de forma natural. Naquilo que somos quando alguém grita por orientação.

Que a gente possa ser o melhor que carregamos, com nossa intenção mais carinhosa, com nossa ação mais imediata dentro daquilo que amamos e que podemos dar ao universo.

Quantas dançarinas engenheiras existem mundo afora criando casinhas para passarinhos. Quantos motoristas são ótimos psicólogos. Quantos pais são bons técnicos de futebol. Quantas mães são ótimas enfermeiras. Quantas amigas são como mágicos, sempre nos surpreendendo e nos fazendo sorrir.

Somos tantos, somos tão lindos naquilo que podemos ser sem rótulos. Somos tão profundos em nossas aptidões.

Tiremos da cabeça essa coisa de que a gente é só isso ou aquilo.

O que eu mais vejo por aí é gente ignorando seus superpoderes e abraçando, sem pudores, a tristeza e o desânimo de uma vida rotulada.

Para fazer a diferença não é preciso visão de raio x ou PHD em seja lá o que for. Abraços, beijos, palavras de alento, peitos abertos para receber aqueles que amamos, exemplos e ensinamentos diários nos fazem voar, sem tapete mágico, até um lugar sagrado: o coração do outro.

Não nos contaram que um abraço vale mais que foguete espacial. Esconderam da gente que já nascemos encantados, que não precisamos correr para alcançar alguma poção mágica e milagrosa no final do arco-íris. Ficaram bem quietinhos para a gente esquecer dos pequenos milagres que realizamos diariamente, sem alardes.

Não inventaram ainda um nome para aqueles que mudam a vida do outro com um sorriso, com uma palavra, com um gesto carinhoso. Não inventaram um nome para dizer tudo que somos e o que representamos na vida daqueles que tocamos.

Quando inventarem, talvez aí, possamos caber em uma palavra. Até lá, não.

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